Atacante da Seleção Argentina campeão mundial de 1978 veio a falecer aos 64 anos vítima de um câncer na lingua descoberto no final de 2017.
Normalmente quando escrevo meus periódicos para o Huracán gosto de escrever sobre seus desempenhos em partidas, sua história, seus ídolos e conquistas, mas hoje venho por meio deste canal escrever sobre o noticiário que foi destaque na última semana, o falecimento de um dos maiores ídolos quemeros, René Orlando Houseman.
O futebol Argentino e em especial os quemeros e villeros estão de luto devido à morte de uma pessoa que tinha grande representação dentro das instituições Club Atlético Excursionistas e principalmente ao Club Atlético Huracán onde conquistou suas maiores glórias dentro do futebol argentino na qual é idolatrado até hoje pela sua torcida. Jogador conhecido pelos extraordinários dribles, rápido, ambidestro, é considerado como um dos melhores da posição na história do futebol Argentino.
Tudo começou quando o garoto franzino nascido no Baixo Belgrano, favela próxima ao luxuoso bairro de Palermo onde começou a jogar bola nas divisões de base do Club Atlético Excursionistas pelo qual é torcedor desde criança, porém devido à falta de oportunidades abandonou o clube para jogar nos times de várzea do bairro onde morava, até que um dirigente do clube rival Defensores Del Begrano o contratou e ele veio estrear como jogador profissional conquistando com a equipe o campeonato da Primeira C em 1972, logo em seguida foi contratado a pedido do técnico César Luis Menotti para estrear no famoso Huracán onde veio a conquistar o Campeonato Argentino de 1973 no famoso time que tinha Héctor Roganti, Nelson Chabay, Daniel Buglione, Alfio Basile, Jorge Carrascosa, Miguel Brindisi, Francisco Russo, Carlos Babington, René Houseman, Roque Avallay e Omar Larrosa, conhecido como a equipe que ficou na história do futebol Argentino. Ainda com boa parte da formação citada chegaram as semifinais da Libertadores de 1974 e aos vice campeonatos de 1975 e 1976. Foi uma contratação na época em que o treinador disse para a imprensa "Esse magrelo que vocês viram hoje, se tornará um das maiores figuras do Futebol Argentino".
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| A esquerda temos a forte equipe campeã de 1973 e a direita os destaques da equipe; Babington, Avallay, Houseman, Brindisi e Larrosa |
Mais adiante, em 1981, foi para o River Plate onde jogou com Ubaldo Fillol, Daniel Passarela, Oscar Ortiz, Ramon Diaz e Mario Kempes, em 1982 foi jogar no Colo Colo do Chile onde fez parte do elenco que conquistou a Copa Chile de 1982, em seguida jogou no Independiente onde fez poucos jogos mas mesmo assim conquistou a Copa Libertadores e o Mundial de Clubes de 1984 jogando ao lado de jogadores como Villaverde, Trossero, Ricardo Bochini, Jorge Burruchaga e Carlos Enrique que ficou conhecido por anular Renato Gaúcho na final do torneio continental. Em março de 1985 René realiza um dos seus maiores sonhos, encerrar a carreira no clube que era torcedor desde criança, o Club Atlético Excursionistas, instituição que possui estádio com o seu nome referente a homenagem, onde jogou na quarta rodada da primeira C com o Deportivo Armênio, jogo este terminado em 0x0.
Seleção Argentina
Conhecido pelo seu estilo irreverente, era o Carlitos Tevez da época. Denominado como "o atacante do povo", foi o jogador do Huracán com maior número de presenças em partidas pela seleção da Argentina num total de 55 jogos e 13 gols. Foi um dos protagonistas da seleção Argentina na Copa do mundo da Alemanha em 1974, onde no jogo contra a Alemanha Oriental em Gelsenkirchen ele não gritou o gol que fez porque Juan Domingo Perón havia morrido dois dias antes e essa era sua maneira de prestar homenagem a ele, além disso ficou famoso pelo gol de empate contra a seleção da Itália que classificou a seleção para a próxima fase, essa copa era a que ele estava na sua melhor fase da carreira.
Em 1978 disputou sua segunda Copa do Mundo, inclusive fez um dos gols na goleada da Argentina sobre o Perú por 6x0, jogo este que dizem alguns que foi polêmico. "O jogo não foi comprado, a seleção entrou para ganhar e fazer os quatro gols. No início da partida os peruanos chutaram uma bola na trave. Como dizer que receberam dinheiro para perder"?
Nas festividades da seleção René se recusou a apertar a mão do ditador Videla devido ao mesmo ter destruído a Aldeia do Bajo devido as proximidades com o Estádio Monumental de Nuñes, embora ele mesmo dissesse uma vez que ele deu e depois se arrependeu, e que se ele tinha ouvido falar sobre os desaparecimentos, assassinatos e torturas o estado comprometido naqueles anos teria renunciado à seleção.
Vida pós fim da carreira
René encerrou a carreira no futebol de forma precoce em razão dos problemas que teve em função do alcoolismo, tanto que até houve um relato no qual quando o mesmo jogava no Huracán, numa partida contra o River Plate jogou sob o efeito da bebida e nessa partida, inclusive, marcou um gol. Graças a Deus Houseman conseguiu se superar desse problema através de tratamentos contra o alcoolismo, ele passou por problemas de ordem financeira nos anos 90 tanto até que em 2000 foi feita uma partida beneficente com o objetivo de ajudar o ex jogador do Huracán, partida na qual foi marcada por fortes emoções onde foram juntados alguns craques do futebol Argentino na época em que René atuava, tanto até que no final da partida os portões de acesso ao gramado foram arrombados pela torcida na qual a mesma invadiu o campo para abraçar o jogador e comemorar este fato marcante na história quemera.
Ele chegou a trabalhar no Huracán como treinador e inclusive foi auxiliar técnico do Angel Cappa no famoso time de 2009, ultimamente ele sobrevivia com a ajuda dos filhos, da pensão que recebe da AFA em razão de ter sido campeão mundial pela seleção e também recebia uma ajuda de custo do próprio clube quemero. Como René tinha uma vida simples ele conseguia se sustentar muito bem, tanto até que se considerava realizado em razão desses fatos conseguidos na época em que era jogador de futebol.
Com o tempo, o Huracan era uma espécie de lar para ele, e os simpatizantes da instituição Parque Patricios sempre o tinham em seu "altar" de referências indiscutíveis, junto com os demais ídolos como Herminio Masantonio, Guillermo Stábile y Antonio Mohamed, porém era muito visto na arquibancada quando o Globo jogava e também quando a sua equipe de coração “Excursionistas” jogava as partidas da terceira divisão nacional, onde também foi grande colaborador na montagem do da equipe de Futebol Feminino que nos dias atuais disputa a primeira divisão do futebol Argentino.
Copa de 2014
El Loco foi convidado pela revista Garganta Poderosa que é especializada em reportagens sobre cultura nas favelas Argentinas e também em alguns países latino americanos onde aborda cultura e problemas sociais, dando voz e espaço as pessoas excluídas, o projeto foi de grande interesse do ex -jogador porque além de ter sua origem humilde, nunca abandonou o lugar de onde veio, a viagem por sua vez foi feita com o apoio do Conselho Latino Americano de Ciências Sociais onde foram reportadas matérias sobre o outro lado da Copa, sem os luxos dos hotéis, grandes marcas, centros de imprensa, ternos e dirigentes esportivos. Devido a sua proximidade com o povo, assistiu a maioria das partidas juntamente com os torcedores na arquibancada recusando camarotes, digno de uma pessoa campeã na simplicidade.
Momentos finais em vida
Em outubro de 2017 o Club Atlético Excursionistas, através de sua página na internet, informa a todos os seus torcedores que René Orlando Houseman atravessava um difícil momento de sua vida devido ao diagnóstico de um câncer de língua, notícia essa que chocou a Argentina de uma forma geral, independente da torcida e/ou rivalidade devido aos grandes serviços prestados frente a seleção da Argentina. A AFA se prontificou a custear todo o tratamento e respaldo ao jogador devido a descoberta do tumor.
Mesmo assim René costumava ir as partidas tanto do Huracan como do Excursionistas na medida do possível. Este ano ainda chegou a participar de uma campanha de sócios conhecidas como sócios de carnet e Hueso em homenagem ao seu maior ídolo que sempre estará no coração de todos os fãs do Globo.
Em fevereiro passado uma imagem chocou diversos jornais, tanto na Argentina como no mundo afora, que foi numa partida entre Huracán e River Plate na qual a mesma começou com quase duas horas de atraso devido ameaça de bomba onde El Loco, ao esperar a liberação dos portões para o início da partida, foi fotografado magro e debilitado, muitos acharam desrespeito com o ídolo quemero devido as condições em que foi encontrado. No começo de março as mensagens circulam pela internet pedindo doadores de sangue principalmente O negativo para ajudar no tratamento do craque, devido ao tratamento oncológico que tem que ser por transfusão.
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| Imagem que chocou a Argentina e o mundo onde ele aguarda início da partida do Huracán sentado na sarjeta. |
Infelizmente nosso craque não conseguiu driblar essa doença, que por sua vez quando é descoberta em 75 % dos casos vem de maneira avançada, o corpo foi velado no estádio do Huracan e depois na sede do Excursionistas, de lá foi para o Cemitério Chacarita. Muitos fãs acompanharam a sua despedida, pois ele era o verdadeiro atacante do povo, nunca recusou uma foto ou um autógrafo, sempre andou no meio dos mais simples pois era assim que se sentia bem. "El Loco" deixa esposa a Olga e os filhos Diego, Jesica e netos Damián, Ezequiel y Catalina.
Frases Marcantes
"Eu nunca me importei em fazer o que os outros jogadores faziam. Sempre fiz o que achava certo e justo. Acho que sou assim até hoje"
"Eu sempre morei em favela. Sempre gostei de lá. E se gostava, me sentia bem e era onde estavam meus amigos, por que sairia de lá?" – Referindo ao bairro onde foi criado – Baixo Belgrano na capital Argentina.
"O jogo não foi comprado. Se os ditadores estavam conspirando, nós, jogadores, nunca ficamos sabendo. Entramos para ganhar e fazer os quatro gols. No início da partida, os peruanos chutaram para o gol e a bola bateu na trave. Como dizer que receberam dinheiro para perder?" – Respondendo aos jornalistas sobre a goleada polêmica na vitória da Argentina sobre o Perú que acabou eliminando o Brasil na copa de 1978
"Quando eu não tinha o que comer, as pessoas dali me ofereciam comida. Isso eu nunca vou esquecer. Sinto essa corrente e essa energia aqui também." "Estou contente de voltar ao passado, às minhas origens e às coisas que me fazem bem" – Quando esteve hospedado na favela do morro Dona Marta no Rio de Janeiro
Considerações finais
Agradecido de coração pela equipe por ser o responsável pela execução do texto sobre esse ilustre jogador de história rica e vasta de alegrias para o povo Argentino de uma forma geral, que marcou alegria para seu povo numa época em que o país passava por sérias dificuldades sociais e políticas.
Agradeço também aos torcedores do Huracán e em especial a peña “Quemeros em el Mundo” pelas informações e coberturas prestadas onde tive o enorme prazer em obter enorme embasamento para a descrição do texto e acompanhamento na íntegra do fato ocorrido dotado de fortes emoções, agradeço também ao amigo Marcos Campos que junto com a minha pessoa faz as coberturas desse maravilhoso time que passa por um enorme sentimento de perda não só de um grande ídolo mas de uma pessoa que nunca abandonou as suas origens e seus valores.
Descanse em paz René, Hueso, Loco, você será lembrado em qualquer canto, seja no Baixo Belgrano, em Parque Patrícios, em Buenos Aires, na Argentina em qualquer parte do mundo e agora no céu. Deixará um grande legado de simplicidade, humildade e claro, o amor ao futebol que como você já nos disse, o futebol não é da FIFA, não é das grandes marcas, é da gente.
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